Operação identifica 42 estrangeiros em trabalho análogo à escravidão no Norte do RS

Ação conjunta da Polícia Civil, do Ministério Público do Trabalho e do Ministério do Trabalho identificou vítimas em quatro municípios; responsáveis pelo recrutamento foram identificados, mas não localizados.

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Uma operação conjunta das forças de segurança e dos órgãos de fiscalização identificou 42 trabalhadores estrangeiros submetidos a condições análogas à escravidão no Norte do Rio Grande do Sul. As ações ocorreram entre os dias 19 e 23 de outubro de 2026, com registros em Aratiba, Três Arroios, Severiano de Almeida e Getúlio Vargas.

A investigação apontou a existência de uma rede suspeita de recrutar estrangeiros em seus países de origem com falsas promessas de emprego, bons salários e moradia adequada. Depois de chegarem ao Brasil, os trabalhadores eram encaminhados para atividades de colheita de citros na região.

Denúncia levou à identificação das primeiras vítimas

A primeira ação ocorreu em 19 de outubro, quando uma equipe da Polícia Civil vinculada à Operação Nacional Protetor das Divisas, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, averiguou uma denúncia sobre possíveis condições ilegais de trabalho no interior de Aratiba.

Na Linha Três Barras, os policiais encontraram oito trabalhadores, sendo sete estrangeiros e um brasileiro. Eles estavam alojados em dois imóveis improvisados, sem condições mínimas de higiene, salubridade e dignidade.

Segundo os relatos colhidos pelos policiais, os trabalhadores estavam no local havia aproximadamente uma semana. Eles afirmaram ter sido recrutados em seus países de origem por intermediários que prometiam remuneração adequada, moradia digna, alimentação, transporte e acesso gratuito à internet.

Conforme as informações apuradas, os trabalhadores eram orientados a entrar no Brasil por caminhos alternativos, fora dos canais oficiais. Já no Rio Grande do Sul, integrantes do grupo investigado os transportavam da fronteira até os locais onde seriam empregados na colheita de citros.

Trabalhadores relatam jornadas de 12 horas e descontos

Ao chegarem aos alojamentos, os trabalhadores encontraram condições diferentes das que haviam sido prometidas. De acordo com os depoimentos, eles eram submetidos informalmente a jornadas de até 12 horas, sem dias de descanso.

Os custos com alimentação, hospedagem e transporte eram descontados dos valores inicialmente acertados. Até o momento das entrevistas, nenhum dos trabalhadores ouvidos havia recebido o pagamento combinado.

Alguns relataram que os empregadores alegavam a existência de dívidas quando alguém deixava de trabalhar em determinado dia. Segundo os depoimentos, as faltas precisavam ser pagas, mesmo quando o trabalhador estava impossibilitado de exercer suas atividades.

Os relatos também apontaram que os trabalhadores poderiam enfrentar cobranças elevadas caso quisessem retornar aos seus países de origem. Além disso, a falta de internet e de sinal de telefonia nos alojamentos dificultava o contato com familiares.

Outro problema identificado foi o transporte até as áreas de colheita. Conforme os trabalhadores, o deslocamento era realizado na caçamba de um caminhão, e os custos eram cobrados por quilômetro percorrido.

Os imóveis utilizados como alojamento não tinham camas e colchões suficientes para todos. Ainda segundo os relatos, cada residência poderia receber até 15 pessoas, independentemente da quantidade de cômodos ou das condições estruturais.

Novas ações identificaram mais trabalhadores

Diante das condições encontradas, a Polícia Civil, com apoio inicial das assistências sociais das prefeituras de Erechim e Aratiba, retirou os trabalhadores do local e providenciou o encaminhamento para um espaço seguro. O Ministério Público do Trabalho também foi acionado para integrar a rede regional de combate ao trabalho escravo.

Nos dias 20 e 21 de outubro, novas ações foram realizadas pela Polícia Civil, pelo Ministério Público do Trabalho e pelo Ministério do Trabalho, com apoio das equipes de assistência social de Erechim, Aratiba, Três Arroios, Severiano de Almeida e Getúlio Vargas.

Nessas diligências, outros estrangeiros recrutados para a mesma finalidade foram identificados e acolhidos. As equipes constataram relatos e situações de condições degradantes e de trabalho ilegal.

Em 23 de outubro, uma nova etapa da operação buscou identificar outras vítimas e os responsáveis pelo recrutamento, transporte e contratação dos trabalhadores. Nessa ocasião, mais 25 estrangeiros em situação degradante e ilegal foram identificados.

De acordo com as informações divulgadas pelas autoridades, os responsáveis pelas atividades de recrutamento, logística e emprego dos trabalhadores foram identificados, mas não haviam sido localizados até a divulgação dos resultados da ação.

Fiscalizações devem continuar na região

As atividades de fiscalização ocorreram em Aratiba, Três Arroios, Severiano de Almeida e Getúlio Vargas. Neste último município, a Brigada Militar prestou apoio operacional por meio da 1ª Companhia Independente, vinculada ao CRPM/Norte.

As equipes de assistência social dos municípios envolvidos, em conjunto com a Secretaria de Assistência Social de Erechim, participaram do acolhimento e do encaminhamento das vítimas.

O Ministério do Trabalho informou que deve continuar as fiscalizações nos próximos dias, com entrevistas e identificação de trabalhadores que ainda permanecem na região.

Até o balanço divulgado, 42 estrangeiros haviam sido identificados como vítimas de trabalho análogo à escravidão. As ações conjuntas devem prosseguir para apurar as irregularidades e responsabilizar os envolvidos.

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