China reduz compras de soja: qual é o plano B do Brasil?

Soja brasileira enfrenta cenário de menor demanda da China

Projeções indicam menor dependência chinesa das importações de soja e reforçam a necessidade de ampliar o processamento do grão no Brasil.

A China deve reduzir as importações de soja na próxima década, segundo projeções oficiais, enquanto o Brasil amplia sua produção e permanece fortemente dependente do mercado chinês. O cenário aumenta a importância de buscar alternativas para agregar valor ao grão e diversificar os destinos da produção brasileira.

China deve comprar menos soja

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A projeção oficial chinesa aponta importações de 82,55 milhões de toneladas em 2035, uma redução de 21,5% em relação à média registrada entre 2023 e 2025. Já a OCDE-FAO trabalha com uma estimativa mais elevada, de 98 milhões de toneladas.

Apesar da diferença entre os números, as duas projeções apontam para a mesma direção: o crescimento da demanda chinesa por soja importada não deve ser considerado garantido.

O impacto para o Brasil é relevante. Em 2024, mais de 70% da soja brasileira exportada teve a China como destino.

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Ao mesmo tempo, a Conab estima uma produção recorde de 180,6 milhões de toneladas na safra 2025/26, com exportações projetadas em 116,3 milhões de toneladas.

Esse cenário cria um desafio: caso a China reduza o ritmo das compras, o problema não seria necessariamente encontrar um novo comprador do mesmo tamanho, mas lidar com uma demanda externa menor justamente quando a produção brasileira segue elevada.

Menos exportação pode mudar o plantio

Uma eventual redução das compras chinesas não significaria automaticamente que o Brasil ficaria com grandes volumes de soja sem mercado.

O primeiro impacto poderia aparecer nos preços e nas margens dos produtores. Com menor rentabilidade, a expansão da área cultivada poderia perder força e algumas regiões menos competitivas poderiam reduzir o plantio de soja.

A substituição por outras culturas, porém, não seria simples.

No Centro-Oeste, por exemplo, a soja exerce papel importante no calendário agrícola porque permite o cultivo do milho de segunda safra. Para 2025/26, a Conab estima produção de 109,43 milhões de toneladas de milho segunda safra.

Alterar esse sistema pode afetar a janela de plantio do milho e aumentar riscos relacionados ao clima.

Algodão, feijão, sorgo e outras culturas podem ganhar espaço em determinadas regiões, mas nenhuma delas reúne exatamente a mesma combinação de escala, liquidez e calendário agrícola da soja.

Processamento pode ser o plano B do Brasil

Uma das alternativas é aumentar o processamento da soja dentro do próprio Brasil.

O esmagamento do grão gera dois produtos importantes: o farelo, utilizado principalmente na alimentação animal, e o óleo, que pode ser destinado à indústria de alimentos e à produção de combustíveis.

Pelos rendimentos industriais observados recentemente, o processamento adicional de 10 milhões de toneladas de soja poderia resultar em aproximadamente 2 milhões de toneladas de óleo e mais de 7 milhões de toneladas de farelo.

O mercado de biocombustíveis já representa uma importante oportunidade.

Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), 6,6 milhões de toneladas de óleo de soja foram destinadas à produção de aproximadamente 7,2 bilhões de litros de biodiesel em 2024.

Para 2035, a EPE projeta demanda de 12,4 bilhões de litros de biodiesel em razão das misturas obrigatórias. Considerando também o transporte aquaviário, a estimativa chega a 13,9 bilhões de litros.

Diesel renovável amplia possibilidades

O biodiesel pode ajudar a absorver parte de uma eventual redução das exportações de soja, mas não seria suficiente sozinho para compensar uma queda chinesa de grande proporção.

Outra possibilidade está no diesel renovável, também conhecido como diesel verde. Produzido por processos como o hidrotratamento de óleos e gorduras, o combustível apresenta características próximas às do diesel fóssil e pode ser utilizado nos motores e na infraestrutura existentes quando atende às especificações técnicas.

O óleo de soja também pode participar dessa cadeia e de processos voltados à produção de combustíveis sustentáveis de aviação.

Um cálculo ajuda a dimensionar o potencial. Se metade da safra brasileira atual, cerca de 90 milhões de toneladas de soja, fosse destinada ao processamento, poderiam ser obtidas aproximadamente 18 milhões de toneladas de óleo.

Considerando os rendimentos industriais do diesel renovável, isso representaria algo próximo de 19 bilhões de litros de combustível por ano.

O volume equivaleria a cerca de 31% da parcela fóssil do diesel consumido no Brasil, considerando uma demanda total projetada em 72 bilhões de litros para 2026 e a atual mistura obrigatória de 15% de biodiesel.

Essa é, porém, uma possibilidade teórica. Para atingir uma escala semelhante, o país precisaria ampliar significativamente tanto a capacidade de esmagamento da soja quanto a indústria de diesel renovável.

O Brasil já possui experiência na integração de cadeias de biocombustíveis. O setor de etanol, por exemplo, aproveita diferentes produtos da cana, enquanto o etanol de milho também gera coprodutos utilizados na alimentação animal e óleo de milho.

A mesma lógica poderia ser ampliada para a soja, integrando produção de farelo, proteínas animais, biodiesel, diesel renovável e combustíveis sustentáveis de aviação.

No cenário de redução da dependência chinesa, o desafio brasileiro passa menos por encontrar um novo comprador com a mesma capacidade de absorção e mais por aumentar o valor gerado internamente por cada tonelada de soja produzida.

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